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Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 2017

Guaíra luta para manter viva a sua rica história

Texto: Cristian Aguazo
Foto: Arquivo

Quem passa pela praça Eurico Gaspar Dutra, na Vila Velha, percebe que existe uma antiga locomotiva exposta.


O que pouca gente sabe é que aquele velho trenzinho traz consigo quase a história toda de Guaíra, então Porto Guaíra, área pertencente à poderosa Companhia Mate Larangeira.


A primeira ferrovia do Oeste do Paraná está intimamente ligada ao poderio da empresa e terá estreita ligação com dois eventos importantes para a historiografia brasileira: a Coluna Prestes e a Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas.


A origem da ferrovia Mate-Larangeira (com "g" mesmo, por ser grafia antiga e familiar) vem da segunda metade do século XIX, quando Thomaz Larangeira recebeu uma concessão do Império para explorar e transportar erva-mate no Estado do Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul), na região de Porto Murtinho, próximo a Corumbá.

 

O gaúcho Thomaz Laranjeira era um homem de visão. Comerciante, ajudou a alimentar as tropas brasileiras durante a Guerra do Paraguai. Em terras guaranis, fez muitos contatos e vislumbrou grandes negócios. A política iria ajudar Larangeira a construir uma empresa próspera. Quando a monarquia deu lugar à República, Larangeira foi astuto e se associou a dois irmãos de uma famosa família cuiabana, ambos liberais e republicanos, com influência na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro.

 

Joaquim Murtinho, o mais famoso deles, era engenheiro civil e médico. Uma de suas célebres pacientes foi a princesa Isabel. Mas foi como republicano que Murtinho ascendeu. Senador por duas vezes, Joaquim Murtinho foi também ministro. Ganhou fama por restaurar a economia do governo de Campos Sales (1898 - 1902) e disputou com Rui Barbosa uma indicação do partido para a presidência da República. Acabou preterido, mas gravando definitivamente seu nome nos anais da história.

 

A família Murtinho, ressalte-se, gostava de finanças. Joaquim e seu irmão Francisco Murtinho (este último leva o nome de uma importante rua em Guaíra) dirigiram o Banco Rio Mato Grosso, extinto em 1902, justamente quando a Companhia Mate Larangeira desiste de enviar erva-mate para a Argentina via Paraguai e resolve apostar no escoamento via rio Paraná, fundando o Porto Mojoli (os paraguaios falavam Monjoli, com "n". E é com "n" que está grafada uma importante rua da cidade), mais tarde rebatizado de Porto Guaíra.

 

O Banco foi o principal financiador de muitos projetos da Companhia, que iria receber ainda mais impulso quando o português Francisco Mendes Gonçalves, radicado em Buenos Aires,  decide virar sócio da empresa.

 

Francisco Mendes Gonçalves era o responsável pela industrialização da erva-mate brasileira na Argentina e também pela exportação de seus produtos (chás e erva para consumo) para o mercado platino e Europeu. Além disso, era banqueiro e um dos homens mais ricos de Buenos Aires, naquela época a cidade mais promissora de toda a América do Sul.

 

Com os Mendes Gonçalves (homenageados com o nome do mais antigo colégio de Guaíra), a Companhia Mate Larangeira se tornou um verdadeiro império. Não é exagero dizer que a empresa chegou a ser um Estado dentro do país, com concessão de terras de 5.000.000 de hectares. De 1926 a 1929, para se ter uma ideia,  a Companhia era tão rica que emprestou dinheiro ao Estado de Mato Grosso.


A Mate Larangeira, que anos antes antecipou o que hoje é o Mercosul, construiu cidades e deixou marcas indeléveis, como a Igrejinha de Pedra. Nem mesmo a Fordlândia (projeto de Henry Ford no Norte do Brasil) ousou tanto: a sede da empresa, em Campanário, tinha hotel, cinema, salão de festas; e Guaíra tinha hospital, rede de esgoto, luz e até serviço de policiamento já na segunda década do século XX.


A ferrovia


Mas talvez tenha sido a construção da ferrovia a grande ousadia da empresa. Inaugurada em 01º de junho de 1917, a estrada de ferro ligava Guaíra a Porto Mendes, do Alto ao Baixo Paraná (um desnível de mais de 100 metros abaixo das lendárias quedas).


A notícia saiu desta forma na revista Brazil Ferrocarril, de 16/7/1917: "Foi inaugurada no Alto Paraná a E F "Decauville", ligando o alto ao baixo rio Paraná, numa extensão de 61 km. Esta estrada, construída pela Empresa Larangeira, Mendes & Co., em consequência de contrato firmado com o Estado do Paraná, parte de Porto Mendes e termina no Porto Mojoli, desviando assim as cataratas de Guairá, ou Sete Quedas, e unindo as extensões navegáveis do rio Paraná desde o Estado de São Paulo até Buenos Aires."


A estação em Guaíra ficava onde hoje é a sede da Copel. O parque de máquinas ficava à margem do rio, na região da Associação Beira Rio, nas proximidades da Lanchonete da Tininha.


Pelo que se afirma na própria reportagem, as primeiras locomotivas eram do tipo Decauville e somente mais tarde máquinas maiores foram encomendadas. A linha tinha a bitola de 60 centímetros, medida esta que permaneceu até o final das operações da linha. O local era completamente isolado do resto do Estado, numa época em que a atual Foz do Iguaçu não passava de uma pequena colônia militar de fronteira. Entretanto, desde o início do século XX, já havia concessões dadas à E. F. São Paulo-Rio Grande para a construção de ramais ferroviários que atingiriam a histórica cidade de Guaíra, partindo de Irati, Guarapuava e mesmo Foz do Iguaçu.

 

Segundo o pesquisador Ralph Giesbrecht, "com as dificuldades da mata inexplorada e a falência da Brazil Railways, que administrava a EFSPRG, esses projetos foram esquecidos, e somente se voltou a falar deles quando se iniciou a construção, em 1923, da E. F. Noroeste do Paraná, antecessora da E. F. São Paulo-Paraná. Esta ferrovia partia de Ourinhos e tinha como destino inicial a margem direita do rio Tibagi, na colônia militar do Jataí, dali seguindo para atingir o rio Paraná".

 

Giesbrecht continua:  "durante o período Vargas a empresa entrou em dificuldades devido à proibição da importação de mate pela Argentina e foi encampada em 1944 pela estatal Serviço de Navegação da Bacia do Prata, criada pelo próprio Getúlio Vargas. Em 1956, a pequena estrada tinha seis estações ou paradas: Guaíra, Bandeira, Oliveira Castro, Arroio Guaçu, Três Irmãs-São Luiz e Porto Mendes. A ferrovia, que chegou a ter oito locomotivas a vapor, teve encerradas suas atividades em 1959, segundo algumas fontes, e em 1961, segundo outras. Curiosamente, em 1963, apenas alguns anos depois de sua extinção, ainda se tentou o seu reerguimento, com a RVPSC tentando um financiamento para reativação da ferrovia ? e possível prolongamento até a linha da antiga E. F. São Paulo-Paraná, que agora estava em Maringá. Em 1973, quando essa linha, já então operada pela Rede Ferroviária Federal, estava chegando com seus trilhos em Cianorte, ainda se falava da união com a cidade de Guaíra".

 

Não aconteceu. O material da ferrovia foi vendido em leilão para a Fundição Guaíra, de Curitiba, mais tarde adquirida pelo grupo Gerdau.

 

Das oito locomotivas alemãs e inglesas, a única que restou é a que está exposta na pracinha. De resto, o que sobra são algumas fotos e uma pequena homenagem do Museu Ferroviário no Shopping Estação, em Curitiba. "Esta nossa locomotiva não é nem a mais significativa, pois a companhia tinha maiores e mais bonitas", relembra Ramon Adolpho Britez, servidor municipal aposentado.

 

 

De volta para o Futuro

 

Cem anos depois da inauguração da linha férrea, Guaíra luta por reaver seu passado de porto importante, de  rota turística e de poderio econômico.

 

Com o fim das 7 Quedas, com o fim da ferrovia e das exportações via rio Paraná, apareceram outros projetos. O maior deles, o de criar um porto intermodal, chegou a entusiasmar, mas também não saiu do papel, apesar dos esforços do ex-prefeito Fabian Vendruscolo, que encabeçou a ideia.

 

A proposta - que contemplaria e integraria os ramais ferroviário e hidroviário - era retomar o que uma empresa conseguiu fazer sozinha e há mais de 100 anos.


Todos sabem do potencial geográfico de Guaíra e o que esta fronteira representa. Então, a pergunta é: Será mesmo que não temos condições de conquistar esse espaço em pleno século XXI?


Políticas à parte, o prefeito Heraldo Trento já se comprometeu publicamente a dar sequência a projetos importantes, como o da solicitação de aumento do repasse dos royalties, das lojas francas e, se possível, o da volta da ferrovia até Guaíra.


Além disso, se comprometeu a cuidar dos prédios históricos, do Museu e da famosa locomotiva.


Cada vez mais em alta, o turismo guairense sabe que precisa apostar no tripé de turismo histórico, ecológico e gastronômico.


Não nos falta belezas e nem história para contar.

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    Data da Última Atualização: 28/05/2020 17:50:06